17 de abril de 2011

O acaso, amor e seus desastres – Cap. IV

Destino no dicionário: Ordem natural estabelecida do universo. Geralmente é concebido como uma sucessão inevitável de acontecimentos provocados ou desconhecidos.
Avenida Novelli - Centro, prédio 1.407, 6º andar, apartamento 603. Um prédio antigo, construído entre as décadas de 30 e 40, arquitetura moderna para época, com varandas amplas nos apartamentos, no 1º andar existe uma galeria que se divide em pequenos estabelecimentos, uma barbearia, uma lavanderia, uma livraria e um café.
Luísa entra com sacolas de supermercado nas mãos e passa correndo pela portaria.
- Oi Josué!
- Senhora Luísa... Senhora Luísa!
- To com pressa Josué.
- Mas Senhora Luísa...
- Tchau Josué.
Josué é o porteiro que trabalha no prédio há mais de 30 anos.  É prestativo, este sempre disposto ajudar os moradores, tem verdadeira paixão pelo seu emprego, o problema é que ele fala demais, conta casos que nunca tem fim. Sabe de tudo e de todos. Luísa não tem muita paciência com as historias dele, na verdade, Luísa não consegue conversar com ele por muito tempo sem ter um ataque de riso. Josué tem um “tique nervoso”, ele faz umas caretas e barulhos muito estranhos quando fala.
- Deixa eu te ajudar...
Entrou no elevador. Depois de alguns minutos...
- Oh Josué, o que significa aquela confusão no meu andar?
- Era isso que eu estava tentando falar, mas a senhora não quis me escutar...
- Tá bom Josué. O quê que aconteceu lá em cima?
- A senhora não mora mais sozinha no 6º andar.  Alugaram o apartamento 602.
- Aé? E quem é o novo morador?
- É um rapaz, deve ter mais ou menos a sua idade. Chegou ontem à noite com a mudança e saiu de madrugada.
- Mas os móveis estão todos espalhados pelo corredor, eu não conseguir nem chegar à minha porta.
- A senhora não viu a mudança ontem, porque não dormiu em casa, está de namorado novo?
- Não Josué, eu estava na casa dos meus pais... Mas esse morador não devia ter colocado os móveis dentro do apartamento?
- É. Devia... Ele é estranho...
 - Estranho como?                     
- Trouxe a mudança numa Kombi azul velha, estava sozinho e eu que ajudei a colocar as coisas no elevador... Cada treco mais esquisito... E o pior a senhora não sabe...
- O que Josué?
- Ele tava vestindo uma saia? Nunca vi homem usando saia...  Depois ele tirou de dentro da mala uma camisa e me deu, disse que era como agradecimento...
- Ele saiu de madrugada e você não viu aquela bagunça lá em cima?                             
- Como eu ia ver? A senhora sabe que se saio da portaria de madrugada aquela sindica horrorosa me xinga. Parece que ela não dorme, fica me viajando a noite inteira, não posso nem ir ao banheiro...
- Ai senhor! Era só o que me faltava...
- A senhora quer que suba e tente arredar os móveis.
- Melhor não. Deixa que eu me viro lá.
Luísa entra no elevador e antes da porta se fechar:
- Segura a porta aí!!
Um homem de saia entra carregando uma samambaia enorme.
- Valeu.
Ele coloca a planta no chão.
Silêncio (por alguns segundos)
- Você é o novo morador do 602? Eu não acredito.
- Pois é, parece que vamos ser vizinhos.
Silêncio novamente (por alguns segundos)
- Eu to começando a ficar com medo dessas coincidências...
- Você sabe se a Sarah gosta só dessas coisas de astrologia, numerologia, ou se ela se interessa por magia negra, feitiço, bruxaria...
Ataque de risos no elevador.

12 de abril de 2011

Diário de uma nova educadora - Parte III


Sim. Existe uma luz no fim do túnel, e eu enxerguei. Bem lá no fundo...

Depois de muita confusão, conseguimos enfim apresentar nossa primeira peça no projeto. Na sexta feira (08/04/2011) os meninos receberam a visita de uma escola particular, os educadores preparam competições de futebol, vôlei e “queimada”, tivemos lanche e almoço especial e a apresentação da peça com o tema da dengue.
Foi uma correria, mas no final deu tudo certo. Fiquei surpresa com a atuação dos “meus meninos”, todos adoraram, e logo que acabou a apresentação já teve educando correndo atrás de mim querendo estar na próxima peça.  A impressão que ficou foi ótima.
Eu fiquei feliz e um pouco aliviada, agora eu sei que podemos...
Temos um talento escondido, uma aluna querida, que contracenou comigo, pois sua colega de cena “abandonou o barco no meio do mar”... Nos ensaios eu percebi o quanto era especial, decorou as falas muito rápido, é comunicativa e espontânea, mas não gostava de ensaiar, e quando pedia mais expressão, ela falava “to preguiça, fessora”, mas escutava com atenção os toques e me prometeu que no dia da apresentação iria fazer do jeito que eu falava... E fez.
Talentos assim, eu sei que existem vários ali, o problema e a tal da preguiça...
Incentivar esses meninos a preparação de uma peça, desde a idéia principal até o roteiro, aquecimentos, alongamentos, estudos dos textos, ensaios... É complicado. Tenho que descobrir uma maneira de estimular interesse deles em relação a esse processo, que é tão importante.
Ontem tive problemas na aula da turma 3 de tarde. Aluno que nunca fez minha aula, que sempre criticou teatro, que atrapalha tudo e todos. Foi muito chato a situação, tive até que escutar que eu não sei dar aula. A nossa peça Show de talentos está meio balançada, os meninos estão na mesma “preguiça” de ensaiar, os textos não estão decorados e a professora, eu, tenho que ficar insistindo para ensaiar... “Chutei o balde”, e ficamos sem fazer nada durante a aula, depois vieram me cobrar e prometeram ensaiar na quarta.
Não sei se agi correto ontem, às vezes percebo que minhas atitudes poderiam ser diferentes, depois que a situação passa que eu converso com outras pessoas... Mas eu sou uma “nova educadora”, e por mais livros que leio, por mais textos que estudo, por mais opiniões que escuto estar lá vivendo é outra realidade. Eu nunca vou estar pronta.

“Ninguém educa ninguém. ninguém educa a si mesmo; os homens educam-se uns aos outros mediatizados pelo mundo”
Paulo Freire

7 de abril de 2011

O que está acontecendo? O mundo está ao contrário e ninguém reparou


Uma manhã de muito trabalho. 
Para alegrar meu almoço uma companhia perfeita... Estava de costas para televisão e escutei a notícia... Perdi o apetite! Diante de tanta brutalidade e violência a gente fica sem saber o que fazer. Sem saber o que vai acontecer... Eu não queria ver mais nada sobre a tragédia do Rio, porque tenho medo por mim, pelos meus alunos, a gente fica "mirabolando" mil coisas... Mas a curiosidade fala mais alta e diante da TV agora... Eu, mãe e pai assistindo jornal e silêncio... Minha mãe chora, pelas mães daquelas crianças e eu... 
Porque acredito nas pessoas e num mundo melhor!

Um pouco de paz...

3 de abril de 2011

Na cozinha com a Bá

Prato: Macarrão de panela de pressão
Ingredientes:
1 pacote de macarrão penne
1 lata de creme de leite
1 lata de extrato de tomate
1 tablete de caldo knorr
100 gramas de mussarela
1 lata de milho verde e azeitona sem caroço (se quiser)
Carne: 1 peito de frango (desfiado) ou meio kilo de carne moída
Óleo e tempero

Modo de preparar:
1 - Coloque na panela de pressão a carne escolhida. Tempere a seu gosto.
2 – Depois da carne pronta, com a panela ainda no fogo, coloque uma quantidade boa de óleo na panela (porque o macarrão costuma grudar no fundo). O tablete de caldo knorr. A lata de creme de leite. A lata de extrato de tomate. O macarrão e meça 2 latas de extrato de tomate com água (ou dois copos americanos de água). Misture e tampe a panela. Depois de pegar pressão marque 3 minutos.
3 – Após os 3 minutos, o macarrão vai estar pré-cozido, coloque mais um copo de água (ou se estiver muito seco, coloque mais água), o milho e a azeitona (se desejar). Misture, tampe a panela e marque mais 2 minutos após a pressão.
4 – Coloque as fatias de mussarela em uma travessa ou tabuleiro e jogue o macarrão por cima.
Pronto.
Sugestão: Servir com arroz branco e uma saladinha e claro o vinho.

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Prato: Lasanha de frango com molho branco

Ingredientes:
1 pacote de massa para lasanha
1 lata de creme de leite
1 lata de milho verde
100 gramas de presunto e mussarela
1 peito de frango (desfiado)
Azeitona sem caroço (se desejar)
Orégano
3 colheres de maisena
1 copo grande de leite
Azeite, manteiga e tempero

 Modo de preparar:
1 – Com o frango já desfiado, refogue e tempere como desejar. Eu uso sal com alho, orégano, azeite e sazon.
2 – Para o molho branco coloque na panela azeite, a lata de creme de leite, misture no copo de leite as 3 colheres de maisena e depois coloque na panela. Misture em fogo baixo (cuidado para não criar pelotas). Tempere o molho branco com sal e alho (equilibre o tempero do molho branco com o do frango). O ponto certo do molho branco para mim é quando ficar pesado a mistura.
OBS: Esse molho branco foi uma invenção minha. Mas da certo. Só tem que tomar cuidado para não engrossar e criar pelotas.
3 – Com o molho pronto misture na panela o milho, a azeitona, e o frango.
4 – No tabuleiro comece montando a lasanha pela massa. Antes unte com manteiga. Vai montando em camadas massa, molho, massa, molho. Deixe o presunto e mussarela para ultima camada. (cuidado para não ficar muito pesada a lasanha, com camadas demais).
5 – Por ultimo coloque azeite e orégano. Coloque papel alumínio e coloque no forno pré aquecido. O tempo varia da temperatura do forno. (mais ou menos 9 minutos)

Sugestão: Servir com arroz branco e uma saladinha e claro o vinho.

Sobremesas         

Brigadeiro de panela
Ingredientes:
1 lata de leite condensado
1 colher de manteiga
3 colheres de achocolatado

Modo de preparo:
1 – Coloque na panela a manteiga e quando derreter jogue o leite condensado e depois as colheres de achocolatado. Misture em fogo baixo. O ponto certo é quando o brigadeiro começa a soltar da panela. (cuidado para não queimar, ou ficar chiclete, tem que ser em fogo baixo).

Mouse de maracujá
Ingredientes:
1 lata de leite condensado
1 lata de creme de leite
3 maracujás
gelo
Modo de preparo:
1 - Bata no liquidificador a polpa do maracujá (sem semente), com a lata de creme de leite, a lata de leite condensado + gelo. Quando mais bater no liquidificador melhor fica.
2  - Coloque numa travessa e jogue a polpa com as sementes por cima do mouse. Coloque para gelar. Bem gelado fica mais gostoso.

FOTOS: http://www.facebook.com/profile.php?id=100001626139339#!/album.php?id=100000031978778&aid=53018

29 de março de 2011

Diário de uma nova educadora - Parte II

Viver um dia após o outro.
Esse tem sido meu lema.

E minha aliada é a famosa paciência, que até então não era muito presente na minha vida, tenho feito exercícios de paciência que ultrapassam o poder de qualquer yoga...

Os dias no projeto não tem sido fáceis.  Com tempo eu consegui cativar carinho de uns e com muito custo respeito. Mas, infelizmente impor o respeito é um dos maiores problemas que estou enfrentando nas aulas. Os meninos são de famílias desestruturadas, são poucos que contam com a presença de uma mãe (que faz o papel de mãe) e fica complicado exigir respeito, quando eles não têm isso em casa.
Aquele aluno que apronta, que “xinga” uma professora, que não respeita ninguém no programa, é aquele que têm uma mãe alcoólatra e um pai preso e é cuidado pela avó junto com mais 6 irmãos, numa casa de 3 cômodos...
Já se foram dois meses de trabalho, e apesar de pouco tempo eu vivi tanta coisa ali que parece tempo demais... É tudo muito intenso e mesmo não querendo, você acaba se envolvendo muito.  É uma realidade muito dura a vida dessas crianças e adolescentes, tão diferente da minha, tem historias que parecem roteiro de filmes.
E diante disso eu fico nesse dilema: Quero dar minha aula. Quero ser respeitada. Quero que os alunos se interessem pela arte. Quero mostrar a eles um mundo diferente. Quero apresentar músicas, poesias, cores que eles nunca viram. Quero que eles acreditem em mim e assim juntos construirmos uma outra realidade. Quero conseguir fazer eles enxergarem que existem oportunidades, e que elas estão aí, basta a gente querer...

Relato: Estávamos fazendo aula ao ar livre, trabalhando com reciclagem, e eu perdi o controle da aula. Em menos de um minuto, eles jogaram tinta para todo lado, era menino correndo, brigando, chorando, e eu louca atrás deles, gritei com um...
 Um aluno de comportamento sempre difícil. E ele ficou parado quieto, só ouvindo meu “sermão”, que na verdade não era só para ele, mas naquele momento foi ele que “pagou o pato” pela confusão, depois que terminei, ele olhou para mim e falou: “Você é tão bonita professora”. Me abraçou apertado e voltou pro seu lugar.

Neste momento estamos ensaiando duas peças que escrevi. Uma está dentro dos temas que temos que trabalhar que é a dengue, no inicio foi ótimo, estavam empolgados, o texto ficou divertido, a proposta é de informar a população, vamos apresentar para a comunidade e talvez levar a peça para as escolas, e eles adoram a idéia de apresentar fora, se sentem importantes...
Mas logo vieram os problemas.
... Preguiça de ensaiar, aluno que saiu fora no meio do caminho, o outro que saiu porque o colega saiu, e quando “pega” eles na responsabilidade, temos que ensaiar, tem que decorar texto, tem que construir o cenário... Aí vem o corpo mole.
Depois de uma reunião, troca de alunos e personagens e uns puxões de orelha a coisa voltou a andar. Estamos confeccionando os figurinos, está sendo muito bacana.
A outra peça é um Show de talento, estilo um desses programas de calouros. No roteiro temos a apresentadora e três jurados. Os candidatos são os próprios alunos que tocam e cantam. Minha intenção foi abrir um espaço para os alunos mostrarem seus talentos e temos alunos muito bons, que tocam violão e cantam.

20 de fevereiro de 2011

Diário de uma nova educadora - Quando tudo começou...

Quando tudo começou...
A proposta de emprego veio através de um amigo da Cia de teatro, fiquei anestesia no primeiro momento. Para a entrevista preparei em uma noite toda minha papelada de tempos de estudos, montei meu portfólio (que já deveria estar pronto há muito tempo), juntei minhas anotações do estágio do ano passado e fiquei ensaiando o que iria dizer...
Na manhã seguinte, numa sexta-feira, em um papo de mais ou menos uma hora o emprego era meu: “Você começa na segunda-feira”.
Educadora. Oficina de teatro de um projeto social. Seis turmas por dia, aula de 50 minutos, publico alvo do programa: crianças e adolescentes carentes, moradores de comunidades com índice elevado de pobreza. Na vida desses meninos: Violência, drogas, falta de estrutura familiar, carência...
Com uma vontade imensa em fazer “muito” e com um medo do novo, eu preparei meu primeiro plano de aula para o projeto. Passei o domingo lendo minhas anotações, meus arquivos de jogos e atividades, reli algumas páginas que havia marcado do livro da Viola... Percebi o quanto foi valioso ter Marina Miranda e Danilo Curtiss como professores, Águeda Kallas como orientadora do estágio (mestra), quando comecei a pesquisar meu caderno de estudos do ano passado, valeu à pena anotar tudo, xerocar tudo. Quantas sabedorias me passaram. Saudades!
Na segunda-feira quando saí de casa ainda era noite (5:30 da manhã), estava com energia radiante,  a caminho do projeto as pessoas que cruzaram comigo no ônibus, depois no centro de BH, depois no ônibus de novo, podiam perceber  minha felicidade, estava me sentindo “grande”, dali a diante,  eu ia fazer a diferença...
Isso era muito importante para mim.
O meu primeiro dia não foi como espera. Não consegui cumprir meu plano de aula e em umas das turmas mal consegui me apresentar. A primeira impressão não foi boa. Percebi os meninos agitados, agressivos e alguns mal-educados. Teve uma turma que tive que parar a aula, pois já estava sem voz e sem energia para continuar. Nesse momento minha vontade foi de sair correndo e nunca mais voltar...
Voltei arrasada. Chorei...
Chorei pelo meu fracasso, pela decepção, pela frustração, pela minha escolha, pelas dúvidas que surgiram...
Fiquei triste pela realidade daqueles meninos.  Pela educação do nosso país. Pelo futuro que os esperam e pela falta de esperança...

“Você é capaz meu amor”. Depois de muito desabafo ao telefone. Ele tem o dom de acalmar meu coração. Como eu queria um abraço naquele dia, um carinho... Eu ia chorar, chorar, e ele fazendo um cafuné ia dizer: “Eu estou aqui”.
Ouvi conselhos do meu pai, fala sempre palavras bonitas, confia em mim e isso me dá segurança.
Mas o negocio era eu e EU. Não ia desistir tão fácil, peguei fôlego, resgatei energias e preparei meu segundo plano de aula...
Foi mais tranquilo. Começamos a conversar sobre um projeto de peça, percebi o interesse em teatro de alguns e a falta de compromisso em outros...
Educar é paciência, sabedoria, compreensão, amor, carinho, escuta...

Eu me sinto tão “preparada”, cheia de idéias, planos, projetos... E ao mesmo tempo me sinto “crua”. Mas acho que é isso, educar é aprender, nunca vamos estar preparados o suficiente...
Eu quero subir um degrau de cada vez.